O Jogo que Ninguém Explicou

E porque alguns de nós são punidos por não adivinhar as regras

Pense numa situação comum.

Uma criança chega na igreja, entra e senta-se no lugar errado. Não o lugar proibido — não tem placa nenhuma. Não o lugar de ninguém — ninguém disse que era deles. Só o lugar errado. Aquele que qualquer um que “entende” as coisas saberia que não deveria ocupar.

Todo mundo percebeu. Ninguém explicou.

E ela ficou sem entender o motivo de tantos olhares e cochichos naquele dia.

Existe uma regra aí. Mas ninguém a escreveu.

A vida social funciona assim: você aprende sem que ninguém ensine. Você aprende que existe um jeito certo de cumprimentar, um tom certo para discordar, um momento certo para falar e um para ficar quieto. Aprende que há perguntas que podem ser feitas e perguntas que constrangem — e que a diferença entre elas raramente é lógica.

Ninguém senta com você e explica isso. Você simplesmente vai observando, errando, ajustando. E um dia, sem perceber, você já sabe jogar.

O problema é que nem todo mundo aprende dessa forma.

E quando alguém não aprende, o mundo não pergunta se a regra foi mal comunicada. O mundo apenas anota que aquela pessoa “não se encaixa”.

O mundo é implícito demais.

Não é crueldade. Crueldade seria simples demais. É algo mais difícil de nomear.

Estou falando de algo mais sutil: o mundo é construído sobre acordos tácitos que a maioria das pessoas nunca precisou questionar. As regras não precisam ser ditas porque, para quem as internalizou, elas parecem naturais. Óbvias. Parte do ar.

E aí começa o problema.

Porque “óbvio” é sempre relativo a quem está olhando. E quando você chama de óbvio aquilo que na verdade é aprendido, você deixa de enxergar aqueles que não tiveram acesso ao mesmo aprendizado.

Você não chama isso de exclusão. Chama de normalidade.

Meus filhos revelaram isso para mim.

Meus dois filhos estão no espectro autista. E ao longo dos anos, observando como o mundo reage a eles, fui percebendo uma coisa que eu não esperava:

Eles não falham porque não aprendem. Eles falham porque o jogo não é claro.

Não é que as regras existam e eles as ignorem. É que as regras existem, ninguém as explica, e depois o resultado é interpretado como déficit. Como se a falha estivesse neles — e não na ausência de clareza do sistema ao redor.

E quanto mais eu olhava para isso, mais percebia: a experiência deles não é exceção. É uma versão mais visível de algo que acontece com todo mundo.

A gente também não recebeu o manual. A gente só aprendeu a fingir melhor.

Sam e Sheldon tentaram fazer o que nós desistimos de tentar.

Sam Gardner, de Atypical, passa boa parte da série tentando entender namoro como se fosse um sistema com regras verificáveis. Ele anota padrões, pesquisa comportamentos, tenta montar um mapa do que é esperado de alguém numa relação.

Sheldon Cooper, de The Big Bang Theory, trata interações sociais como equações. Se você fizer X, o resultado esperado é Y. Se a reação for Z, há uma variável não identificada.

Tem algo quase cômico nisso — e a cultura pop usa isso como fonte de humor. Mas existe também algo desconfortável, se você parar para pensar.

Porque o que eles estão fazendo, no fundo, é tentar tornar explícito aquilo que todos nós aprendemos a esconder. Estão pedindo para ver o contrato que a maioria assinou sem ler.

E o mundo ri. Porque é mais fácil rir do que admitir que o contrato existe.

E então fica a dúvida.

E se “funcionar socialmente” não for entender o mundo — mas apenas aprender a não questioná-lo?

Essa é a pergunta que fica.

Porque existe uma diferença entre compreender as regras e simplesmente ter parado de notá-las. A maioria de nós não entende o sistema social — nós o performamos. Aprendemos os gestos certos, os silêncios adequados, as respostas esperadas. E com o tempo, essa performance ficou tão automática que passamos a chamá-la de instinto.

Chamar isso de “habilidade social” é uma maneira elegante de dizer que você se acostumou.

Não que isso seja errado. Acostumar-se é uma estratégia de sobrevivência legítima. Mas quando elevamos o acostumado à categoria de normal — e tratamos o questionador como desajustado —, estamos fazendo algo que merece ser olhado com mais cuidado.

Estamos confundindo adaptação com compreensão.

Meus filhos não precisam alcançar o mundo. Eles estão revelando algo sobre ele.

Quando um dos meus filhos pergunta por que precisamos cumprimentar alguém com um sorriso mesmo quando estamos tristes, a resposta honesta não é simples. Não é instintiva. É, na maior parte das vezes, “porque é assim que se faz”.

E “porque é assim que se faz” é a confissão mais honesta de que não existe uma razão — existe apenas um hábito coletivo que ninguém mais audita.

Eles não estão falhando em entender o mundo. Eles estão recusando aceitar que o mundo não precisa ser explicado.

E isso, numa cultura que valoriza a conformidade silenciosa acima de quase tudo, aparece como dificuldade. Como sintoma. Como algo a ser corrigido.

Mas talvez o problema não seja a dificuldade de alguns em entender o mundo.

Talvez seja o fato de que o mundo nunca foi realmente explicado.

E a maioria de nós simplesmente parou de pedir.

Porque algumas histórias revelam mais quando olhamos por trás da tela.

Paulo Morais | Por Trás da Tela

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