Entre Dom Quixote e Deadpool, o que mudou — e o que continua igual?
Você consegue lembrar da última vez que torceu para alguém perfeito?
Não estou falando de admiração. Estou falando de torcida. Aquele investimento emocional que faz você segurar o fôlego, sentir o coração apertar, vibrar na vitória e doer na derrota. Esse tipo de conexão.
Porque, se você parar para pensar, provavelmente não torce para o personagem impecável. Torce para o que tropeça. Para o que falha e tenta de novo. Para o que carrega um peso que todos conseguem reconhecer — mesmo sem saber nomear exatamente qual é.
Isso não é coincidência. É algo que mudou em nós.
O herói que não podia errar
Durante séculos, o herói precisava ser quase divino.
Aquiles era invencível. Hércules tinha força sobre-humana. O cavaleiro medieval derrotava o dragão e voltava sem uma mancha na armadura. Mesmo quando tinham falhas — e tinham — essas falhas eram quase ornamentais, detalhes que tornavam a grandeza ainda mais impressionante.
O herói perfeito cumpria uma função. Ele era uma promessa. Uma declaração de que existia, em algum lugar, alguém que conseguia. Que a virtude era possível. Que o bem sempre encontrava um caminho.
E nós precisávamos acreditar nisso.
Em tempos de vida imprevisível e morte próxima, uma figura inquebrantável tinha valor real. O herói perfeito não era uma fantasia escapista — era quase uma necessidade psicológica.
Mas algo foi mudando. Primeiro, lentamente. Depois, de repente.
O herói que não sabia que estava errado
Antes de chegar ao herói moderno — irônico, cínico, autoconsciente —, existe uma figura que poucos consideram quando pensam em imperfeição heroica.
Dom Quixote.
O triste cavaleiro de Cervantes, publicado no início do século XVII, não é exatamente o que entendemos hoje por herói quebrado. Ele não carrega traumas explícitos. Não tem um arco de superação formatado. Não faz piadas sobre as próprias falhas.
Ele simplesmente acredita. Em tudo. Com uma intensidade que o mundo ao redor não consegue suportar.
Os moinhos de vento são gigantes. A estalagem é um castelo. A camponesa é uma dama. Para todos os outros personagens da história, Dom Quixote é um louco. Para ele, é um cavaleiro cumprindo o seu destino.
Aqui está o ponto que importa: a imperfeição de Dom Quixote não vem da falta. Vem do excesso. Excesso de sonho, de idealismo, de fé numa visão de mundo que o mundo real não confirma.
Ele não está errado porque é fraco. Está errado porque acredita demais.
E há algo profundamente perturbador nessa ideia, porque nos coloca diante de uma pergunta difícil: será que ele é louco — ou somos nós que paramos de enxergar os gigantes?
A nobreza da ilusão de Dom Quixote é uma espécie de crítica às pessoas ao redor dele, que são “sãs”, “racionais” e completamente incapazes de mover o mundo um milímetro. Ele falha. Mas ele tenta. E essa tentativa, por mais ridícula que pareça, tem uma dignidade que a sensatez dos outros não tem.
Essa é a primeira forma de herói imperfeito: o que não sabe que está errado, e cujo erro é, talvez, a coisa mais humana que existe.
O herói que sabe que está errado — e não liga
Agora avança quatro séculos.
Deadpool aparece em 1991 na HQ The New Mutants #98, da Marvel, criado por Rob Liefeld e Fabian Nicieza. Em 2016 surge nas telas dos cinemas e faz algo que nenhum super-herói havia feito de forma tão direta antes: ele olha para a câmera e ri da própria existência. Seus três filmes foram grandes sucessos de público.
Não é apenas o humor que chama a atenção. É a postura. Deadpool sabe que é um personagem. Sabe que é imperfeito, violento, instável e provavelmente inadequado para o papel de herói. E usa exatamente esse conhecimento como armadura.
A ironia é o seu superpoder mais importante — não a regeneração.
Porque enquanto Dom Quixote falha sem perceber, Deadpool falha com total consciência. Ele antecipa a crítica, muita crítica, e ri dela antes que alguém possa usá-la contra ele. É uma defesa sofisticada. Tão sofisticada que quase parece autoconfiança.
Mas preste atenção: o humor de Deadpool nunca é leve de verdade. Por baixo da piada, existe uma dor real — o corpo destruído, o rosto desfigurado, o isolamento. Ele não é bem-resolvido. É bem armado. E são coisas diferentes.
Dom Quixote acreditava demais. Deadpool acredita em quase nada.
Um é vítima do idealismo. O outro é vítima do cinismo. E nós amamos os dois — por razões que talvez digam mais sobre nós do que sobre eles.
O que isso diz sobre nós?
Aqui está a pergunta que realmente importa.
Por que essa transição aconteceu? Por que saímos do herói impecável, passamos pelo ingênuo nobre e chegamos ao herói que se autossabota com ironia?
A resposta mais confortável é: evoluímos. Ficamos mais sofisticados. Aprendemos a apreciar complexidade. O herói perfeito era uma simplificação — e nós não precisamos mais de simplificações.
Essa resposta tem algo de verdade. Mas tem também algo de autoengano.
Porque existe outra hipótese, menos lisonjeira: não escolhemos o herói imperfeito porque ficamos mais maduros. Talvez não seja apenas uma mudança cultural. Talvez seja cansaço. Ou medo.
O herói perfeito nos humilha sutilmente. Ele existe como uma régua implícita. Você olha para ele e, mesmo que não perceba, mede a distância entre o que ele é e o que você é. Essa distância pode ser motivadora. Mas também pode ser insuportável.
O herói imperfeito faz o oposto: ele desce até você. Ele normaliza a falha, o tropeço, a inconsistência. E isso gera alívio imediato, genuíno, necessário.
Mas cuidado com o que vem depois desse alívio.
Quando o modelo perfeito desaparece completamente do horizonte, algo muda na forma como a falha é tratada. Ela deixa de ser o obstáculo que você precisa superar e passa a ser a condição que você precisa aceitar. No limite, o herói imperfeito pode nos dar permissão não para sermos humanos — mas para transformar a falha em identidade.
Estamos mais lúcidos? Possivelmente. Mas será que não estamos também um pouco mais acomodados?
O espelho que preferimos
Há uma diferença importante entre admirar alguém e se identificar com alguém.
O herói perfeito era admirado. O herói imperfeito é reconhecido.
E reconhecimento é mais poderoso que admiração, pelo menos no curto prazo. Quando vemos alguém que erra como nós erramos, que duvida como nós duvidamos, que às vezes desiste e às vezes tenta de novo sem muito motivo claro — sentimos que não estamos sozinhos.
Isso tem valor real. Não é pouca coisa.
Mas existe uma pergunta que fica suspensa nesse conforto todo: o espelho nos mostra quem somos — ou quem decidimos ser?
Porque Dom Quixote não era um espelho. Era uma janela. Ele mostrava algo além do que você já conhecia. Algo absurdo, exagerado, impossível — mas que expandia o que parecia alcançável. A loucura dele tinha função: ela empurrava.
Deadpool, por mais que amemos, é um espelho. Ele nos confirma. E às vezes, o que mais precisamos não é de confirmação.
Talvez o herói que realmente precisamos não seja nem o perfeito nem o quebrado. Talvez seja o que erra — e ainda assim escolhe continuar. Não porque acredita demais, como Dom Quixote. Não apesar de não acreditar em nada, como Deadpool. Mas porque aprendeu, lentamente, que a tentativa tem valor próprio.
Independente do resultado. Independente da plateia.
Talvez o problema nunca tenha sido a queda dos deuses. Talvez seja o fato de termos parado de levantar depois de cair.
Não queremos mais deuses. Queremos espelhos.
A pergunta é: o que fazemos quando o espelho só nos devolve o que já sabemos?
Porque algumas histórias revelam mais quando olhamos por trás da tela.
Paulo Morais | Por Trás da Tela
Assim como um cardápio, é muito bom termos opções de heróis, os “pratos” não precisam ser iguais, mesmo porque enjoam.