A infantilização dos adultos na cultura pop.
Por que crescer parece cada vez mais opcional?
Você já parou para perceber quantos adultos ao seu redor ainda não decidiram o que querem ser quando crescerem?
Em algum momento das últimas décadas, algo silencioso começou a acontecer. Muitos observadores passaram a falar sobre a infantilização dos adultos na cultura contemporânea. A infância deixou de ser apenas uma fase da vida — e passou a ser um lugar para onde muitos adultos continuam voltando, voluntariamente, com nostalgia e alívio.
Filmes que parecem feitos para adolescentes dominam o cinema. Séries sobre primeiros amores e descobertas afetivas conquistam públicos de todas as idades. Produtos antes claramente voltados para jovens agora são consumidos por pessoas que já passaram dos trinta, quarenta ou cinquenta anos.
E isso não acontece apenas no entretenimento.
Adultos falam como adolescentes. Vestem-se como se ainda fossem. Colecionam brinquedos. Adiam decisões que antes eram consideradas marcos inevitáveis da vida adulta.
O fenômeno tem rosto.
E tem bilheteria.
Quando Barbie estreou nos cinemas em 2023, muita gente esperava apenas um filme nostálgico. O que se viu foi outra coisa: adultos se reconhecendo numa narrativa que mistura infância, identidade e a dificuldade de entender o que significa crescer de verdade. O resultado? O maior sucesso mundial de bilheteria daquele ano.
Algo semelhante acontece com Heartstopper, da Netflix. À primeira vista, é uma história adolescente sobre descobertas afetivas. Mas uma parte significativa do público não é formada por adolescentes — são adultos que se emocionam com a delicadeza da história, que dizem sentir falta de ter vivido algo assim, que parecem revisitar ou talvez reimaginar a própria juventude.
Isso levanta uma questão incômoda: estamos amadurecendo mais tarde — ou estamos tentando evitar crescer?
Durante muito tempo, os marcos eram claros.
Trabalho estável. Casamento. Filhos. Responsabilidades que chegavam cedo e raramente eram negociáveis.
Hoje essas fronteiras ficaram difusas. As pessoas estudam por mais tempo, mudam de carreira várias vezes, casam mais tarde — ou não casam. Existe mais liberdade. Mas existe algo curioso: a sensação de que a vida adulta pode sempre começar depois. Depois de mais uma tentativa. Depois de mais uma experiência. Depois de mais um tempo para descobrir quem realmente somos.
Essa mudança não é necessariamente ruim. Em muitos aspectos, é saudável que a vida não esteja mais presa a um roteiro rígido. Crescer não precisa significar abandonar curiosidade, leveza ou sensibilidade.
O problema começa quando a juventude deixa de ser uma fase — e passa a ser um refúgio.
O filósofo Byung-Chul Han observa que a sociedade contemporânea cultiva uma espécie de positividade compulsiva: a recusa ao negativo, ao limite, ao que dói. Crescer, nesse sentido, é um ato fundamentalmente negativo — implica aceitar que algumas portas se fecham, que algumas escolhas são irreversíveis, que o tempo não volta. Numa cultura que evita o desconforto a todo custo, a maturidade se torna quase subversiva.
Porque crescer é aceitar limites. Assumir responsabilidades. Reconhecer que algumas escolhas fecham portas para sempre. E isso nunca foi confortável.
A cultura inteira parece estar tentando suspender esse momento.
Universos que reiniciam. Personagens que voltam. Heróis que nunca envelhecem. Jogos que nunca terminam. É como se houvesse um acordo coletivo tácito: podemos ficar aqui um pouco mais, num lugar onde as consequências ainda não chegaram.
Mas a maturidade não acontece quando deixamos de gostar de coisas jovens. Ela acontece quando conseguimos gostar delas sem precisar fugir da vida que temos.
A pergunta, no fim, talvez seja mais simples do que parece.
Quando nos emocionamos com essas histórias — estamos apenas nos divertindo? Ou estamos tentando voltar para um lugar onde as escolhas ainda não tinham consequências?
Há uma diferença entre não querer crescer e não saber como. O primeiro é uma escolha. O segundo é um sinal que merece atenção.
Porque algumas histórias revelam mais quando olhamos por trás da tela.
Paulo Morais | Por Trás da Tela