Rumi e a Vida Dupla Que Todos Vivemos – Análise de K-Pop Demon Hunters (Guerreiras do K-Pop)

Reflexões sobre identidade e performance em K-Pop Demon Hunters

Quem você é quando as luzes do palco se apagam?

Você já parou para pensar que existe uma diferença entre a forma como nos apresentamos nas nossas interações do dia a dia e quem realmente somos quando nos olhamos no espelho? Talvez tudo comece ainda na infância, depois de ouvir diversas vezes a mãe dizer que “em casa nós resolvemos isso”. Em casa você vai ver quem eu realmente sou. Não estou falando de falsidade, mas de uma “persona pública” que usamos nas performances da vida diária. Isso é um problema? Não necessariamente. Acredito que o problema surge quando essa versão editada de si mesmo se torna onipresente e você não consegue viver a sua própria realidade.

O filme “Guerreiras do K-Pop” (K-Pop Demon Hunters, da Netflix) apresenta a personagem Rumi que, além de ser uma grande cantora de K-Pop junto com as amigas, também tem uma segunda vida caçando demônios ao lado das parceiras. A dualidade que chamou a minha atenção, no entanto, é o fato de nem suas amigas conhecerem a verdade sobre sua origem e o que a motiva nessa batalha incessante contra os demônios. E, aos poucos, esse segredo começa a minar a sua performance musical.

Como cantar uma música que você ainda não consegue sentir?

No filme, após sermos apresentados às protagonistas, conhecer suas habilidades musicais e também sua eficiência derrotando seus inimigos, descobrimos que a própria Rumi tem marcas demoníacas em seu corpo. Sua mãe foi uma antiga lutadora que, em algum momento, envolveu-se com um demônio. Rumi é o fruto desse relacionamento e cresceu, órfã, tendo que esconder esse seu passado.

Rumi e suas amigas são fortes, habilidosas e competentes tanto enfrentando demônios quanto encantando os fãs em cima do palco. Mas quando deixam os holofotes, cada uma tem as suas próprias lutas. A questão principal com Rumi é precisar esconder até de suas companheiras a dor que ela mesma carrega, os demônios internos que ela enfrenta a todo momento.

Sendo um grande ídolo musical, já traz a pressão para parecer perfeita. Inúmeras pessoas olham para seus ídolos e se espelham, reproduzindo comportamentos e atitudes. No palco, Rumi, Mira e Zoey precisam brilhar e, considerando a importância da música na batalha espiritual que também travam, é possível dizer que elas nasceram para isso. No Brasil temos um ditado popular que diz: “quem canta seus males espanta” e é exatamente assim que funciona a lógica do filme.

Considerando tudo isso, o palco torna-se uma metáfora da vida e da batalha que enfrentam. Mas o que se pode fazer quando por baixo das suas roupas brilhantes você esconde marcas que mostram que você tem um pouco do próprio Mal que você enfrenta?

Em que lado da batalha você realmente se encontra?

A música escolhida para derrotar de forma definitiva os demônios é “Golden”, mas a voz de Rumi falha quando ela precisa cantar que cansou de ficar escondida e que vai brilhar como nasceu para brilhar. O colapso vem, quando reconhece que essas palavras são vazias para ela. Esconder seu passado e seu maior desejo simplesmente faz com que a música seja uma mentira.

As músicas vão contando parte da história, mostrando o desenvolvimento dos personagens, como sempre acontece com bons musicais. A música Golden, ao contrário, mostra a perfeição e versão idealizada que Rumi tenta sustentar ao esconder quem realmente é. E, quando o “brilho” vem apenas da maquiagem e dos holofotes, ele não é suficiente. É até irônico como o seu nome pode ser associado ao significado de liberdade quando, na verdade, ela se sente presa ao medo de se mostrar como realmente é.

O momento que apresenta o dueto “Free”, com Jinu, marca o início da jornada de libertação. Rumi encontra nele alguém que também carrega marcas e segredos que prendem e machucam. Mas a liberdade não virá a menos que encare de frente o seu passado e deixe que ele seja apenas passado, sem peso no presente. Existe ainda, nesse momento, o desejo de simplesmente apagar o passado, apagar sua história, ou seja, o caminho ainda é longo, pois a verdadeira libertação somente vem com a aceitação de quem você é de verdade, sem medo ou vergonha.

Ao conseguir cantar os versos da música “What it sounds like”, Rumi encontra o ponto de virada na jornada de sua vida. Sem esconder suas marcas, mostrando os padrões na pele que ela mesma não entende, a caçadora de demônios consegue se mostrar como realmente é e encontra forças na aceitação do público e de suas amigas. Sua dualidade não é destruída. É integrada. Um dos versos da música diz, em tradução livre: agora eu vejo toda a beleza mesmo que seja nos pedaços de vidro quebrado. O passado é assumido e ela encontra sua verdadeira voz, sem todas as mentiras. Aceitação, força, sem medo, sem rótulos, verdade: esse é o som de sua voz!

Muitas pessoas acabam se perdendo depois de passar muito tempo encenando um alter ego, sem mostrar quem realmente são. Isso pode trazer perda de identidade e sofrimento. Isso vai minar suas próprias capacidades de continuar lutando e enfrentando as batalhas do dia a dia. Até chegar ao ponto da falha, abrupta e fatal.

Quem aqui já não se pegou, em algum momento, apresentado uma versão polida e formatada de si mesmo, tentando ser “Golden”, fingindo ter finalmente se encontrado, quando, na verdade, só está se perdendo cada vez mais. Atrair os aplausos da plateia não vale a pena quando o preço a ser pago é apagar a própria identidade. Esconder as suas marcas e negar os seus padrões para se encaixar na expectativa dos outros é arriscado demais, vai fazer sua voz falhar quando você mais precisar dela.

As luzes do palco escondem muito bem os seus “defeitos”, mas o que sobra quando você desce dele? Resta o seu maior inimigo: a vergonha de ser quem você é.

Porque algumas histórias revelam mais quando olhamos por trás da tela.

Paulo Morais | Por Trás da Tela

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