Por que continuamos procurando tribos, comunidades e histórias das quais possamos fazer parte?
Pense por um instante em pessoas cantando juntas num estádio.
Não importa muito qual time. Não importa se você gosta de futebol. Repare só na cena. Milhares de desconhecidos com a mesma camisa, cantando a mesma música, no mesmo tempo, sem precisar ensaiar. Por alguns minutos, eles não são milhares. São um.
Agora troque a cena. Fãs lotando uma convenção, vestidos como os personagens que amam. Voluntários numa causa, dividindo um propósito que ninguém pediu para eles defenderem. Uma família em torno da mesa de Natal — mesmo nas famílias complicadas, há algo que se ativa ali. Pessoas reunidas num culto, num bloco de carnaval, num grupo de corrida no parque.
O que todas essas pessoas estão procurando?
Talvez não seja entretenimento. Talvez não seja nem concordância — porque elas discordam em quase tudo o resto. Talvez seja outra coisa, mais antiga e mais difícil de nomear. A necessidade de pertencimento. A sensação, ainda que breve, de fazer parte.
A necessidade de pertencimento é mais antiga do que imaginamos.
Durante quase toda a história humana, ninguém viveu sozinho. Nem foi feito para isso.
A vida acontecia em tribos, em aldeias, em clãs, em famílias extensas que se sobrepunham. Sobreviver não dependia de força individual, mas do grupo. A caça, a colheita, a proteção contra predadores, o cuidado com os doentes e com os velhos — nada disso era tarefa para uma pessoa. Era tarefa para um nós.
Ser excluído do grupo, nesse mundo, não era um inconveniente. Era praticamente uma sentença. Sozinho, ao relento, sem rede, sem alianças, a probabilidade de sobrevivência despencava.
Nosso cérebro carregou essa herança. Ele aprendeu a tratar a exclusão social como uma forma de ameaça, e a aceitação como uma forma de segurança. Essa programação não foi atualizada quando passamos a viver em apartamentos com geladeira, internet e delivery. Ela continua lá, antiga, ativa, decidindo coisas por baixo do que chamamos de razão.
Pertencer nunca foi um luxo. Sempre foi necessidade.
Vivemos mais conectados — e menos pertencentes.
Aqui está o paradoxo do nosso tempo.
Nenhuma geração teve tantas ferramentas de aproximação. Redes sociais. Mensagens instantâneas. Chamadas de vídeo com pessoas do outro lado do planeta. Comunicação global, contínua, quase gratuita. Em tese, estamos mais próximos uns dos outros do que jamais estivemos.
E, no entanto, os dados sobre solidão crescem em silêncio. Pessoas relatam sentir-se sozinhas mesmo cercadas de gente. Adultos jovens dizem ter mais contatos do que amigos. Famílias dividem o mesmo teto sem dividir quase nada.
Não é caso de culpar a tecnologia. Esse argumento é fácil demais — e geralmente errado.
O ponto é mais sutil. Conexão não é a mesma coisa que pertencimento. Você pode estar conectado a centenas de pessoas e não pertencer a nenhuma. Pode trocar mensagens o dia inteiro e terminar a noite com a sensação de que ninguém realmente sabe onde você está, como você está, ou se você estará bem amanhã.
Conexão é informação trocada. Pertencimento é vida partilhada. São coisas diferentes — e uma nunca substituiu a outra.
Quando as comunidades enfraquecem.
Nas últimas décadas, uma série de estruturas que sustentavam o pertencimento foi perdendo força.
Os bairros viraram endereços. As igrejas esvaziaram em algumas regiões e mudaram de função em outras. Os clubes, as associações, os grêmios, os encontros de vizinhança — quase tudo passou a competir, em desvantagem, com o sofá e a tela. A família ampliada se dispersou pela geografia. Os primos cresceram longe. Os tios viraram nomes em grupos de WhatsApp.
Não é caso de idealizar — havia rigidez, fofoca, controle social, conflitos. Comunidades sempre tiveram seus pesos. Mas tinham também algo que essa época diluiu: convivência repetida. Gente que cruzava a sua vida de novo e de novo, sem precisar de motivo especial.
E aqui está um ponto que vale guardar: o pertencimento nasce da repetição. Ninguém se sente parte de algo depois de um único encontro. Pertencer leva tempo. Leva domingos. Leva conversas que se acumulam, brigas que se resolvem, dias bons que se misturam aos dias mortos. Sem repetição, há cordialidade. Há até afeto. Mas raramente há aquela sensação funda de fazer parte.
O que colocamos no lugar?
Aqui vem um ponto importante: o pertencimento não desapareceu.
Ele migrou.
Hoje encontramos tribos em outros endereços. Em fandoms que reúnem milhões em torno de uma série, um jogo, uma artista. Em comunidades online organizadas por nicho — corrida, parentalidade, doenças raras, hobbies improváveis. Em causas políticas que oferecem não só uma bandeira, mas um nós. Em torno de influenciadores que viram quase amigos pelo simples fato de aparecerem todo dia na tela. Em grupos de interesse que substituem, em parte, o que o bairro um dia deu.
Algumas dessas novas tribos são reais e generosas. Pessoas que nunca se viram pessoalmente choram juntas a perda de alguém do grupo. Outras são tribos finas, episódicas, que se desfazem na primeira mudança de algoritmo.
Mas a busca está lá. Intacta. Quando uma estrutura cai, o impulso humano simplesmente vai procurar outra. Porque não dá para viver sem um nós — só dá para mudar o formato dele.
Nove caminhantes que não pertenciam juntos.
Existe uma cena, em O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (2001, de Peter Jackson), que talvez seja uma das melhores imagens já feitas sobre pertencimento — e quase ninguém a lê assim.
É a cena do Conselho de Elrond. Em Valfenda, um grupo de povos diferentes se reúne para decidir o que fazer com o Um Anel. Há elfos, anões, homens, magos e quatro hobbits que, em tese, nem deveriam estar ali. Logo nos primeiros minutos, o conselho descamba. Cada povo desconfia do outro. Anões e elfos têm rixas antigas. Os homens não confiam em ninguém. Vozes se sobrepõem até que um hobbit pequeno, vindo de um lugar pacífico onde nada de épico jamais acontece, se levanta e diz: eu levo o anel.
E é aí que algo muda.
Um a um, outros se levantam. Não porque sejam amigos. Não porque venham do mesmo lugar. Não porque concordem em quase nada. Mas porque algo maior do que cada um deles passa a importar mais do que as diferenças entre eles.
A Sociedade do Anel é exatamente isso: uma comunidade improvável, formada por nove caminhantes que não pertenciam juntos. Um elfo e um anão que praticamente se odeiam no início. Um futuro rei e um soldado que disputam a mesma legitimidade. Quatro hobbits que ninguém previa que durariam dois dias na estrada. Um mago velho liderando essa salada improvável.
E o ponto não é que eles se tornam amigos por afinidade prévia. O ponto é que eles se tornam amigos pelo caminho. Pelo perigo dividido. Pelo fogo compartilhado à noite. Por aquilo que só nasce quando pessoas muito diferentes resolvem caminhar juntas em direção a algo que importa.
O pertencimento, nessa história, não é encontrado. É construído. Quase nunca é confortável. E é, ainda assim, uma das forças mais poderosas que aparecem em qualquer um dos três filmes.
O perigo de pertencer.
É preciso dizer também o que costuma ficar de fora desse tipo de conversa.
Pertencimento não é automaticamente bom.
O mesmo impulso que cria comunidade pode criar tribo no pior sentido da palavra. Grupos abraçam — e excluem. Acolhem os de dentro — e desumanizam os de fora. Dão identidade — e cobram lealdade cega como pagamento. A história está cheia de pessoas que encontraram pertencimento em coletivos que, vistos de fora, eram nitidamente destrutivos. E ainda assim, ali dentro, elas se sentiam, pela primeira vez na vida, em casa.
Isso não é exceção. É parte do pacote. O cérebro que precisa de um nós não vem com filtro embutido para verificar se o nós é saudável. Ele só registra: estou aceito. E isso, por si só, já é poderoso o suficiente para nos fazer aceitar coisas que, sozinhos, jamais aceitaríamos.
Pertencer é humano. Mas pertencer ao quê — e a que preço — é uma pergunta que o impulso, por si só, não responde. Essa, infelizmente, ainda é tarefa nossa.
Talvez ninguém floresça sozinho.
Não se trata, aqui, de defender um tipo específico de comunidade.
Não é a igreja, especificamente. Não é o partido, especificamente. Não é o fandom, nem a família, nem o grupo de amigos, nem o time. Cada pessoa vai encontrar — ou já encontrou, ou ainda vai construir — o seu próprio formato.
A ideia é mais simples e mais difícil ao mesmo tempo.
Talvez o ser humano nunca tenha sido feito para uma vida solo. Talvez exista um piso de pertencimento abaixo do qual a gente simplesmente não floresce. Não importa quão bem-sucedido, produtivo ou independente alguém pareça por fora — sem um nós em algum lugar, alguma coisa fundamental fica em falta.
E isso não é fraqueza. É a forma como nossa espécie foi montada.
E o estádio continua cantando.
Volte por um instante à cena do começo. Os milhares cantando juntos.
Talvez agora ela faça um pouco mais de sentido. O que aquelas pessoas estão buscando, ali, não é só o resultado do jogo. Não é só a música. É a experiência rara — e cada vez mais difícil — de, por alguns minutos, deixar de ser apenas um eu cercado de outros eus, e virar parte de algo.
Talvez seja por isso que continuamos procurando. Em estádios, em causas, em mesas de jantar, em grupos improváveis. Não porque haja algo errado conosco. Mas porque uma parte importante da experiência humana sempre precisou desse pano de fundo maior, dentro do qual a vida pessoal de cada um faz sentido.
Talvez a pergunta nunca tenha sido apenas “quem sou eu?”.
Talvez uma parte importante da nossa existência sempre tenha sido outra, mais difícil, mais antiga: de quem eu sou?
Porque algumas histórias revelam mais quando olhamos por trás da tela.
Paulo Morais | Por Trás da Tela