Quando tudo vira função, o que acontece com os momentos que existiam só para serem momentos?
Pense no domingo de quando você era criança.
Provavelmente ele tinha outro ritmo. As lojas fechadas. O almoço que demorava — e ninguém tinha pressa de sair da mesa. Uma roupa diferente, talvez. A igreja, a visita, a família reunida em torno de alguma coisa que não precisava ser explicada. O domingo não era um dia qualquer. Ele tinha textura própria.
Agora pense no domingo de hoje.
Segunda, terça, sábado e domingo começam a se parecer. O mesmo streaming. O mesmo celular. O trabalho que entra em casa pela tela e não pede licença. Tudo disponível o tempo todo — e, por isso mesmo, nada especialmente marcado. Os rituais sociais sempre fizeram parte da experiência humana, mesmo quando não percebíamos. E talvez a gente só tenha notado a falta deles agora que sumiram.
O que acontece quando todos os dias começam a ficar iguais?
O que eram os rituais sociais?
Aqui vale desfazer um mal-entendido logo de início: ritual não é a mesma coisa que religião.
A palavra carrega esse peso, mas o sentido é mais amplo. Rituais são estruturas humanas. A refeição em família. O aniversário. O casamento. A formatura. O luto e suas etapas. As festas coletivas. O domingo diferente dos outros dias. A passagem reconhecida da infância para a vida adulta.
Alguns têm origem religiosa, outros não têm nenhuma. Mas todos cumpriam funções parecidas — e quase invisíveis.
Eles davam forma ao tempo. Marcavam transições, separando o antes do depois. Criavam pertencimento, reunindo pessoas em torno de algo compartilhado. E transformavam momentos em memória — porque aquilo que é marcado fica, e aquilo que se dilui no resto, some.
O ritual não era enfeite. Era arquitetura. Era a forma como a experiência humana ganhava contorno.
Quando tudo virou funcional.
Em algum momento, sem aviso, uma pergunta passou a organizar quase tudo: isso serve para quê?
Se não produz resultado, dinheiro, eficiência, desempenho — parece descartável. E os rituais, por definição, não produzem nada. São tempo gasto com algo que não rende. Vistos por essa lógica, parecem desperdício.
Então tudo foi sendo enxugado, otimizado, reduzido ao essencial. O almoço virou refeição rápida. O domingo virou tempo disponível para resolver pendências. A comunidade virou rede de contatos. A celebração virou postagem. A infância virou preparação para o futuro. O adulto virou produtividade.
Nada disso aconteceu por maldade. Aconteceu por eficiência. Cada corte parecia razoável sozinho. O problema é o que sobra quando todos eles se somam.
Porque quando tudo precisa ser útil, aquilo que não serve para nada — mas significava alguma coisa — costuma desaparecer primeiro.
A fragmentação da comunidade.
Talvez seja aqui que a perda mais se sinta.
Antes, havia repetição de convivência. Os mesmos vizinhos. A mesma igreja, o mesmo clube, a mesma família estendida aparecendo nas mesmas datas. Não vou idealizar — havia fofoca, controle, conflitos que ninguém escolheu. A comunidade tinha seu peso. Mas tinha também algo que era difícil de nomear e fácil de sentir falta: gente que cruzava a sua vida de novo e de novo, até virar parte dela.
Hoje temos mais conexão do que qualquer geração anterior. E, ainda assim, menos pertencimento.
Muitos desses rituais sociais — as refeições em família, as celebrações coletivas, os encontros comunitários — foram perdendo espaço. Cada pessoa habita um algoritmo próprio. Cada tela abre um mundo diferente. Estamos cercados de gente o tempo todo. E compartilhamos cada vez menos com cada uma delas.
Podemos estar rodeados — e mesmo assim não dividir quase nada.
A perda das passagens.
Existe um tipo de ritual que talvez seja o mais importante de todos: o que marca uma passagem.
Antes, as fronteiras eram visíveis. Infância, adolescência, vida adulta — e cerimônias que confirmavam cada degrau. Havia um momento em que a sociedade reconhecia, em voz alta, que você havia mudado de lugar. Que novas responsabilidades chegavam. Que algo tinha ficado para trás de forma definitiva.
Hoje isso ficou difuso. As passagens não desapareceram, mas perderam a moldura. E sem moldura, fica difícil saber quando, exatamente, alguma coisa começou ou terminou.
Quando uma pessoa se torna adulta, afinal?
Na idade? Quando paga a própria conta? Quando tem filhos? Quando consegue um trabalho? Quando sai da casa dos pais — se é que sai?
Não há mais uma resposta clara. E talvez seja exatamente isso: a vida adulta deixou de ter uma porta de entrada. Virou um cômodo em que você descobre que está dentro sem lembrar de ter atravessado a soleira.
Viktor Frankl e o vazio que sobra.
O psiquiatra Viktor Frankl, em Em Busca de Sentido, descreveu algo que chamou de vazio existencial: aquela sensação difusa de deslocamento que aparece quando o sentido some. Ele observou que o ser humano suporta quase qualquer dor — desde que consiga enxergar algum propósito nela. O problema começa quando o propósito desaparece.
Costumamos associar esse vazio à perda da religião. Mas talvez ele venha de algo mais amplo: a perda das estruturas que organizavam o significado.
Os rituais não explicavam o mundo. Não respondiam às grandes perguntas. Mas davam orientação. Criavam pertencimento. E, sobretudo, lembravam que existia algo maior do que o indivíduo — um grupo, uma tradição, um tempo que não começava nem terminava em você.
Quando essas estruturas se desfazem, ninguém anuncia. A vida continua funcionando. Mas algo, em silêncio, fica sem chão.
Um homem que transformou a repetição em sentido.
Em DIAS PERFEITOS, (Perfect Days, 2023, de Wim Wenders), acompanhamos Hirayama, um senhor que limpa banheiros públicos em Tóquio. A vida dele é feita de repetição quase absoluta. Ele acorda no mesmo horário, rega as mudas de plantas que cultiva, compra um café na mesma máquina, escuta as mesmas fitas cassete no caminho do trabalho, almoça no mesmo parque, fotografa as mesmas árvores.
Dito assim, parece a definição de uma vida sem graça. É o oposto de tudo que aprendemos a desejar — sem novidade, sem ascensão, sem espetáculo.
E, no entanto, é uma das vidas mais plenas que o cinema recente colocou na tela.
O filme gira em torno de uma palavra japonesa: komorebi — a luz do sol filtrada pelas folhas das árvores, o desenho de sombras que se move com o vento. Hirayama fotografa esse fenômeno todos os dias, do mesmo banco. E aqui está o detalhe que muda tudo: o komorebi nunca se repete. A mesma árvore, o mesmo banco, a mesma hora — e ainda assim, cada dia produz uma luz que jamais existiu antes e nunca mais vai existir.
É o contrário da eficiência. Hirayama não acumula, não otimiza, não corre atrás de mais. Ele repete. Mas repete com presença. E é justamente a repetição cuidadosa — o gesto feito de novo, com atenção — que transforma um dia comum em algo que importa.
Talvez o ritual nunca tenha sido sobre obrigação.
Aqui vale virar a chave.
É fácil lembrar dos rituais como peso. A missa obrigatória. O almoço de família que ninguém podia faltar. A formalidade da data marcada. E é verdade — muitos viraram pura obrigação, esvaziados de qualquer sentido.
Mas talvez o valor do ritual nunca tenha estado no gesto em si. Talvez estivesse no que ele interrompia.
Porque o ritual, no fundo, dizia uma coisa só, repetida de mil formas: pare. Este momento importa. Esta pessoa importa. Este dia é diferente dos outros.
Ele recortava o tempo. Apontava para um pedaço da vida e dizia: aqui, agora, vale a pena estar inteiro. Sem ele, o tempo vira uma corrente contínua e indistinta — e a gente atravessa tudo sem nunca chegar de verdade em lugar nenhum.
E o domingo continua.
Talvez o problema não seja só estarmos ocupados demais.
Talvez seja termos perdido as pausas que davam forma ao tempo. As marcas que separavam um dia do outro, uma fase da seguinte, uma pessoa da multidão. Cortamos tudo o que não servia para nada — e descobrimos, tarde demais, que parte do que não servia para nada era exatamente o que dava sentido ao resto.
Porque uma vida não é feita apenas do que produzimos. Também é feita dos momentos que escolhemos separar do resto — e proteger.
Quando tudo é igual, nada parece especial. Talvez os rituais existissem justamente para nos lembrar de que algumas coisas são.
Porque algumas histórias revelam mais quando olhamos por trás da tela.
Paulo Morais | Por Trás da Tela